Leumas Andrade

A ilha do Fogo, em Cabo Verde, vive dias de profunda consternação após o pior acidente rodoviário da história do país, que vitimou 25 pessoas e feriu outras 14 na noite de 5 de setembro de 2026. Uma semana após o trágico despiste de um autocarro que transportava maioritariamente estudantes do ensino secundário, a resposta social e as exigências por infraestruturas mais seguras dominam o debate público. O presidente da Câmara Municipal de São Filipe, Nuías Silva, anunciou esta sexta-feira, 11 de setembro, um pacote de apoio financeiro e logístico para as famílias afetadas, numa ação conjunta com o Governo central. Contudo, a dor da perda reacendeu o alerta de condutores e residentes sobre as condições extremas de circulação nas estradas de montanha do arquipélago.
Solidariedade e Resposta Imediata às Famílias
Em declarações aos jornalistas, o autarca Nuías Silva confirmou que já foram identificados e estão a ser processados nas contas bancárias os apoios monetários no valor de 100 mil escudos cabo-verdianos (cerca de 907 euros) por cada vítima mortal. O autarca fez questão de clarificar que o subsídio é atribuído em função do número de vítimas e não por agregado familiar, salvaguardando as famílias que perderam mais do que um ente querido na tragédia.
Para além do apoio financeiro direto, as medidas de emergência incluem as seguintes ações:
- A distribuição de cestas básicas de alimentos às famílias afetadas;
- Acompanhamento psicológico contínuo prestado por um gabinete de crise local;
- Garantia de alojamento e alimentação na cidade da Praia para os familiares dos feridos graves transferidos para o Hospital Agostinho Neto;
- Isenção total de taxas funerárias e cedência de jazigos perpétuos pela autarquia.
A edilidade planeia ainda avançar com a construção de túmulos em granito ou mármore para preservar a memória das vítimas e apoiar a reestruturação económica das famílias através de projetos de rendimento que serão implementados após o período de luto de um mês.
O Perigo Escondido nas Curvas do Fogo
Apesar do esforço de mitigação social, a tragédia trouxe para a ribalta as graves lacunas na segurança das vias que ligam as zonas altas da ilha. O acidente ocorreu na estrada entre Chã das Caldeiras e Campanas de Cima, uma rota turística e de escoamento agrícola muito frequentada, mas caracterizada por um traçado sinuoso e perigoso.
Condutores locais, que realizam o percurso diariamente, afirmam que o medo se instalou na comunidade. Luís Gomes, motorista de transporte coletivo de passageiros ('hiace') de 35 anos, revelou à agência Lusa que o traçado apresenta descidas muito acentuadas e curvas extremamente fechadas que carecem de barreiras de proteção, sinalização vertical e iluminação. A visibilidade é frequentemente nula devido ao nevoeiro denso, um obstáculo também sublinhado pelo taxista Gerson Moeda, que descreve as dificuldades adicionais criadas pelas condições meteorológicas de altitude.
O Pior Acidente Terrestre da História de Cabo Verde
O sinistro de 5 de setembro de 2026 superou a queda do voo TACV 5002, ocorrida em 1999 com 18 vítimas mortais, tornando-se o acidente de transporte mais mortífero alguma vez registado em solo cabo-verdiano. O autocarro acidentado transportava 39 pessoas, na sua maioria jovens estudantes do ensino secundário provenientes de Curral Grande e Ponta Verde que regressavam de uma excursão privada.
Vinte pessoas morreram imediatamente no local do embate, no fundo de uma ravina com cerca de 30 metros de profundidade. Outras cinco vítimas, com idades compreendidas entre os 6 e os 16 anos, acabaram por sucumbir aos ferimentos no hospital local durante as horas seguintes, mergulhando o país inteiro num luto nacional espontâneo.
O Caminho para a Recuperação e Prevenção
O impacto desta tragédia exigirá uma profunda reflexão sobre o ordenamento do transporte coletivo de passageiros e as vistorias técnicas das infraestruturas rodoviárias de Cabo Verde. Embora as estradas do país sejam geralmente vistas como estando em boas condições comparativamente à região, a orografia acidentada das ilhas vulcânicas exige um padrão de segurança muito superior.
O Governo e as autoridades municipais enfrentam agora a pressão para rever as normas de segurança ativa nas estradas de montanha, incluindo a instalação urgente de rails de proteção metálicos ou de betão nos pontos críticos de precipício. A prevenção de futuros acidentes desta magnitude dependerá não apenas da fiscalização dos veículos e da regulamentação das excursões privadas, mas de um investimento sério na infraestrutura que protege a vida dos cidadãos cabo-verdianos.
Perguntas frequentes
Qual o valor do apoio financeiro atribuído às famílias das vítimas?
O presidente da Câmara de São Filipe, Nuías Silva, anunciou que cada família receberá 100 mil escudos cabo-verdianos (cerca de 907 euros) por cada vítima mortal registada, além de apoio alimentar e acompanhamento psicológico.
Onde e quando ocorreu o trágico acidente?
O acidente ocorreu na noite de sábado, 5 de setembro de 2026, na estrada de montanha que liga Chã das Caldeiras a Campanas de Cima, no norte do município de São Filipe, na ilha do Fogo, quando um autocarro caiu numa ravina de aproximadamente 30 metros.
Quem eram as principais vítimas e quantas pessoas foram afetadas?
O autocarro transportava 39 pessoas, maioritariamente estudantes do ensino secundário das localidades de Curral Grande e Ponta Verde. O balanço registou 25 vítimas mortais e 14 feridos, alguns dos quais foram evacuados para a cidade da Praia devido à gravidade dos ferimentos.
Quais são as principais reclamações dos condutores locais sobre a estrada?
Condutores e moradores apontam que a via apresenta descidas íngremes, curvas muito fechadas e perigosas, além de uma total ausência de barreiras de proteção lateral, iluminação pública e sinalização adequada, fatores agravados pelo nevoeiro denso característico da altitude.
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